O grave caso de violência fatal ocorrido nas dependências da Bombril, em São Bernardo do Campo (SP), trouxe à tona uma discussão que vai muito além do episódio em si: qual é o papel das empresas na prevenção de riscos humanos, psicossociais e organizacionais?
Como as circunstâncias e as responsabilidades ainda estão sendo apuradas pelas autoridades competentes, qualquer conclusão seria precipitada. No entanto, casos como esse evidenciam que eventos extremos envolvendo colaboradores colocam imediatamente em debate a capacidade das organizações de estarem preparadas para conflitos, acolher pessoas, oferecer canais de escuta e responder adequadamente a situações de risco.
É justamente nesse ponto que ESG deixa de ser visto apenas como uma agenda voltada apenas à sustentabilidade ambiental e passa a ocupar um papel estratégico na gestão corporativa.
A gestão da saúde mental, da segurança psicológica, da cultura organizacional, da ética e da prevenção de riscos humanos tornou-se parte essencial da sustentabilidade do negócio.
Nenhuma empresa está imune a conflitos internos. A diferença está na maturidade da estrutura.
No posicionamento divulgado após o ocorrido, a Bombril destacou a existência de canais corporativos destinados ao acolhimento de colaboradores, ao relato de situações de risco e à comunicação de condutas inadequadas. A empresa também informa possuir um Canal de Ética independente e confidencial, além de processos envolvendo a administração, a CIPA e as áreas de Saúde e Segurança do Trabalho.
Esses mecanismos representam uma base importante de governança. Por essa razão, é indispensável que esses instrumentos sejam conhecidos, acessíveis, confiáveis e capazes de gerar respostas rápidas e adequadas.
Essa discussão ganha ainda mais relevância com a nova redação da NR-1, em vigor desde 26 de maio de 2026, que passou a exigir a inclusão dos fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).
Na prática, isso significa que temas como assédio, violência, sobrecarga, conflitos interpessoais e outros fatores capazes de afetar a saúde mental dos trabalhadores deixam de ser apenas questões de Recursos Humanos e passam a integrar formalmente a gestão de riscos das empresas.
Nesse contexto, torna-se evidente que ESG e Gestão de Pessoas não podem caminhar de forma isolada.
Uma área de ESG estruturada deve atuar de forma integrada com Recursos Humanos, Compliance, Saúde e Segurança do Trabalho, Jurídico e Governança Corporativa para construir ambientes psicologicamente seguros, fortalecer a cultura ética, estimular a confiança nos canais de denúncia e promover ações preventivas antes que os problemas alcancem níveis críticos.
Mais do que cumprir exigências regulatórias, investir em saúde mental, segurança psicológica e cultura organizacional é uma decisão estratégica. Empresas que atuam preventivamente reduzem riscos legais, trabalhistas e reputacionais, fortalecem a confiança de seus colaboradores e aumentam sua capacidade de enfrentar situações de crise.
A reputação de uma organização não é construída apenas por campanhas institucionais ou posicionamentos públicos. Ela é resultado da coerência entre aquilo que a empresa comunica e aquilo que efetivamente se pratica todos os dias.
Talvez essa seja a principal reflexão que casos como o da Bombril deixam para o mercado: estruturas de ESG não existem apenas para atender indicadores ou responder a investidores. Elas existem para proteger pessoas, fortalecer a governança e tornar as organizações mais resilientes diante dos riscos que fazem parte da realidade empresarial.
Quando ESG, Compliance, Saúde e Segurança do Trabalho e Gestão de Pessoas atuam de forma integrada, a empresa deixa de agir apenas quando a crise acontece e passa a desenvolver a capacidade mais importante de todas: preveni-la.
Prof.ª Camila Soares - Docente e coordenadora de pós-graduação na Universidade Ibirapuera, em São Paulo. Mestra em Psicossomática, orienta estudos nas áreas de ESG, interdisciplinaridade e aprendizagem corporativa. Líder de ações ESG, atua para o alcance de objetivos de empresas e pessoas de forma eficaz e alinhada aos momentos profissionais e pessoais.